Giro do Vale / Cotidiano

A seleção brasileira sem apoio psicológico: a eliminação era previsível?

Aos amantes de futebol, calma! Eu não vim aqui dizer que a seleção brasileira teria seguido para à semifinal da copa se a comissão técnica tivesse um psicólogo do esporte, muito menos garantir que levaria a taça por esse mesmo motivo. Por outro lado, posso afirmar, sim, que essa seleção teria tido muito mais estabilidade emocional para lidar com a pressão e expectativa no mundial, além de poder lidar de forma mais eficaz com a frustração, buscando força para a superação das dificuldades. Teríamos uma seleção mais confiante, unida, focada, emocionalmente mais inteligente e fortalecida. Não tenho dúvida que o resultado seria melhor.

Mas antes mesmo de continuar, quero enfatizar, então, que sim, a psicologia também se dedica à área esportiva. Nesse contexto o psicólogo se propõe a compreender a influência dos fatores emocionais, cognitivos e motivacionais no rendimento do atleta e da equipe. Avalia-se tudo aquilo que possa estar interferindo nas questões emocionais do grupo, consequentemente no resultado, e propõe-se trabalhos que melhorem os aspectos negativos percebidos, além de potencializar os aspectos positivos.

E voltando à seleção brasileira, ninguém esqueceu da cena de uma equipe desmoralizada e emocionalmente despedaçada diante daquele 7×1, não é? Todos fomos pegos de surpresa, mas foram os jogadores que tiveram nas costas a missão de apresentarem um bom futebol e uma boa classificação na Rússia. E o que vimos? Uma equipe insegura nas adversidades e fragilizada após seus resultados. O Brasil foi apático diante da Suíca, recebendo uma enxurrada de críticas após o empate, na sua estreia nessa copa do mundo. A partir dalí, jogo após jogo, a pressão só aumentava, já que a nação verde e amarelo queria ver futebol de primeira classe, ao invés daquele sofrimento com placares justíssimos. Muita cobrança e expectativa, frustração com o desempenho e tensão pelo risco da eliminação precoce, sem falar na memória daquele vexame. Você consegue perceber o tamanho da bagunça emocional que facilmente se alastra dentro de uma equipe? Isso reflete a importância da presença de um psicólogo, ainda mais em equipes de alto rendimento como a seleção brasileira.

As maiores equipes de futebol do mundo reconhecem e valorizam o trabalho da psicologia do esporte e não abrem mão da presença desse profissional na comissão técnica, desde as categorias de base. A Alemanha serve de exemplo, de novo. E ninguém aprende. Já no Brasil, prevalece o preconceito, apesar da inegável necessidade desse trabalho. Em 2014, Dunga declarou que não sabia a quem o psicólogo poderia contar sobre aquilo que ouviria lá, mostrando-se totalmente desinformado sobre a ética da profissão. O próprio Neymar, quando questionado sobre sua opinião em relação à presença de um psicólogo na seleção, disse que não era louco. E eu já acho que ele é um dos que mais precisa. E aí vem o Tite, conhecido pela sua habilidade de lidar com “a cabeça” dos atletas. É bem verdade que o Tite falava muito sobre “estar mentalmente forte” e superar as dificuldades. Chega a ser engraçado, uma seleção falando tanto na importância da força mental, com tantas frustrações na bagagem, não conceder espaço ao profissional que justamente é especialista nessas questões.

A seleção brasileira está pagando o preço pela desvalorização da psicologia, mesmo com o evidente descontrole emocional dos atletas em campo. Não vê quem não quer. A atuação da seleção nessa copa permitia afirmar, sim, que a eliminação aconteceria. Não foi por falta de talentos, foi, em grande parte, instabilidade emocional. Já passou da hora de acordar para essa realidade! E ainda que o Tite seja um grande líder, vamos combinar? Ele é bom treinador, mas alguém, por gentileza, avisa lá que isso não faz dele um psicólogo. Longe disso!

Comentários

  1. Angela Nascimento disse:

    Bom dia, Jeniffer. Ainda existe mui preconceito a respeito de buscar auxílio na psicologia, por falta de informação e conhecimento, do quanto um profissional ajuda em nossas decisões do cotidiano, quanto mais em situações de grandes pressões. Eu era preconceituosa, não queria ser chamada de “louca”, por ter um acompanhamento psicológico, mas hoje sei o quanto estava errada. Eu agradeço a Deus, por estes profissionais que acrescentam, conhecimento, sabedoria, nos auxiliando a tomar as melhores decisões para nossas vidas. Acompanho suas publicações e todas tem sido muita valia em minha vida. Que Deus, continue te usando, poderosamente, na vida de muitas pessoas,como tem sido na minha. Bjo

    • Jeniffer Harth disse:

      Angela, teu depoimento me deixa imensamente feliz. E feliz muito mais por ti em ter percebido o quanto a psicologia pode lhe ajudar, independente do motivo. A psicologia sofre muito preconceito, por isso que palavras como as tuas são extremamente importantes para alertar a todos. Obrigada por compartilhar tua opinião aqui! 😉

  2. Denilson de Oliveira disse:

    Parabéns pela matéria!!! Concodo plenamente com suas colocações. A Psicologia Esportiva é um elemento muito importante e fundamental para que uma equipe possa obter resultados e bons desempenhos. Além é claro de ajudar e muito, os atletas a lidarem com suas frustrações. Sem dúvidas o acompanhamento de um profissional da psicologia seria muito bem vinda na seleção que foi à copa do mundo. Não cheguei à acompanhar de fato como foi o trabalho psicológico da seleção e como ele foi desenvolvido. Mas se realmente deixaram de levar e manter um profissional da área na comissão técnica, tá aí mais um equívoco dentre outros que acompanhamos da nossa seleção.
    Abraço Jeniffer e parabéns mais uma vez pela sua coluna!!!

    • Jeniffer Harth disse:

      Denilson, pelo que pesquisei, a seleção já teve profiasional de psicologia em momento anterior, mas alguns técnicos optaram por não trabalhar mais com esse profissional, assim foi o caso do Dunga, tendo sido mantido pelo Tite, embora com pontos de vista bem diferentes em relação a isso. Dentre tantas questões que precisam melhorar na nossa seleção, a atenção para o fator emocional é uma delas. Infelizmente esse trabalho ainda não é devidamente reconhecido no nosso país, no contexto geral. Vamos torcer para que as coisas mudem. Muito obrigada pelo teu comentário!

  3. Daniel Klein disse:

    Vejo que esse assunto é de suma importância no esporte mundial… tomando exemplo da seleção brasileira faltava mesmo um auxílio psicológico pois algumas atitudes como agressões, palavrões e baixa auto estima são questões que precisam ser controladas pq a imagem que deixam é vergonhoso para nossa nação… parabéns jeni pelo assunto de suma importância

    • Jeniffer Harth disse:

      Nossa seleção ainda é uma das poucas que não dá devida importância ao fator emocional dos seus atletas, mas acredito que em algum momento esse trabalho possa ser retomado. Não tenho dúvida que esse trabalho, apesar das dificuldades que enfrentaria, contribuiria muito para uma seleção mais preparada para a copa. Obrigada pelo comentário!

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