Giro do Vale / Cotidiano

Como pode uma mãe querer matar o próprio filho?

 

A morte de um filho, planejada por uma mãe, é sempre um cenário chocante. A primeira pergunta que vem à mente: como pode uma mãe fazer isso? Onde está o amor materno, inquestionável e incondicional? Essas perguntas pairaram no ar depois da recente notícia de tentativa de suicídio e filicídio causado por uma mãe na BR 386, em Lajeado. Antes do acidente intencional, em que ela jogou o carro contra uma carreta, a mãe gravou um vídeo em que convidava a filha de 2 anos para se matarem e pedia que ela se despedisse do pai. O mal estar causado pelo vídeo é inevitável, assim como a indignação pela atitude da mãe. Você não é o único a se perguntar, o que se passa na cabeça dessa mãe?

Filicídio é o termo usado para descrever o homicídio contra um filho, provocado pelos próprios pais. Diferente do infanticídio, que acontece geralmente com crianças recém nascidas ou até um ano de idade, o filicídio é o crime contra filhos de até 18 anos. Um ou o outro, esse tipo de crime comove a todos e causa muita revolta. Ao ver a notícia veiculando nas redes sociais, percebi comentários que se referiam à mãe como “vagabunda, se matando por causa de macho”, “escrota”, “monstro”, além de comentários se referindo à falta de amor, de Deus e influência do diabo, como supostas justificativas para tal atitude. Esse tipo de manifestação é mais do que compreensível, mas é preciso esclarecer e alertar sobre uma problemática que as pessoas insistem em ignorar, os transtornos mentais.

Vou começar dizendo que não, essa mãe não é mau caráter, escrota, um monstro, influenciada por forças malignas. É uma mãe que cometeu um crime horrível, sim, mas acometida por um adoecimento mental. As pessoas precisam entender que ninguém, em sã consciência, sai para se matar e levar seu próprio filho, esse tipo de situação sempre envolve um transtorno mental. E possivelmente os sinais desse adoecimento já estavam lá há tempo, mas ninguém percebeu ou não deu a devida atenção. Não estou dizendo isso para aliviar a culpa dessa mãe, só quero esclarecer do perigo da doença mental não tratada e da complexidade das emoções desreguladas na vida de uma pessoa.

Casos de retaliação por parte da mãe, o que parece ter sido a motivação desse crime, geralmente estão acompanhados de algum tipo de transtorno, distúrbios de personalidade, histórico de tentativa de suicídio, relacionamentos hostis, conflitos, violência, depressão e abuso. Tudo isso, por si só, já é bastante problemático se não tratado e costuma ser potencializado em situações de sofrimento emocional, como ciúmes, suspeita de infidelidade, não aceitação do término de um relacionamento, dentre outras situações. A desordem emocional é tão grande, que o instinto materno fica completamente alterado, e no seu sentimento de abandono esquece o papel de mãe, dando vez ao seu egocentrismo. O amor materno sai de cena e a agressividade contra o ex-cônjuge acaba sendo direcionada à criança, como forma de atingir o pai. Você consegue perceber o grau de adoecimento?

Estudiosos de casos de filicídio e infanticídio apontam cinco situações que costumam estar relacionadas a esses tipos de crime: surto psicótico, pais que não desejam a criança, vingança contra cônjuge, negligência e descuido ou quando o genitor, acreditando estar fazendo o melhor ao filho, comete o homicídio e em seguida o suicídio. Esse último caso, por mais estranho que possa parecer, é visto em caso de mães que não vendo outra alternativa senão a morte, acreditam que a melhor forma de proteger o filho contra o sofrimento do mundo é levá-lo também à morte. É cruel? Sim. Transtornos mentais são realmente difíceis.

Todo crime deve, sim, ser responsabilizado. Não há dúvida quanto a isso, mas é preciso ressaltar que pessoas adoecidas precisam ser tratadas! O transtorno mental pode levar uma pessoa a cometer um crime, mas ela é culpada pelo crime, não pelo transtorno do qual ela sofre. Essa mãe precisa, urgentemente, de atendimento psicológico e psiquiátrico para conseguir se estabilizar e lidar com as consequências desse ato, tanto pelo viés judiciário, quanto emocional.

Agora eu te pergunto: quantos crimes como esse poderiam ser evitados se as pessoas dessem a devida atenção ao problema? Uma mãe que chora e não sente prazer na maternidade, um pai que demonstra atitudes violentas quando contrariado, uma vizinha que sofre violência doméstica, uma irmã vítima de abuso, uma criança negligenciada. Problemas de viés psicológico, se não tratados, só pioram. Portanto, denunciar e buscar ajuda é o mínimo que devemos fazer. É preciso que as pessoas tenham consciência da complexidade da doença mental, somente assim veremos menos julgamentos e mais acolhimento ao sofrimento alheio, consequentemente, menos crimes chocantes como esse.

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