Giro do Vale / Geral

Governo do RS estuda ajuste no distanciamento controlado

Debate é sobre a contabilização de casos positivos de testes rápidos

Foto: Felipe Dalla Valle / Palácio Piratini

O governo do Rio Grande do Sul estuda ajustes nos indicadores utilizados no modelo de Distanciamento Controlado em vigor há uma semana. Nas reuniões diárias de avaliação, a área técnica debate a necessidade de mudanças em relação principalmente a um ponto: o do critério para contabilização do número de casos confirmados, ativos e recuperados. No modelo atual, são considerados apenas os casos que tiveram resultado positivo de testes moleculares (os RT-PCR). Todos aqueles confirmados por meio de testes rápidos não entram na conta (inclusive os da pesquisa sorológica do próprio governo, liderada pela Universidade Federal de Pelotas). Se levada a efeito, a mudança, com peso para alterar a cor de pelo menos parte das bandeiras em vigor, deverá vir acompanhada de critérios que flexibilizem as margens das bandeiras atuais. Também estão sendo pesadas as implicações políticas de uma alteração neste momento.

Apesar de o governo não ter um levantamento sobre o quantitativo de testes aplicados até o momento no Estado, é público que a quantidade de rápidos enviados pelo Ministério da Saúde para distribuição às prefeituras é significativamente maior que a de testes moleculares. Conforme dados do próprio governo estadual, 243 mil testes rápidos encaminhados pelo Ministério da Saúde foram distribuídos aos municípios desde 13 de abril, divididos em três lotes (o último em 14 de maio). E um novo lote é aguardado. As últimas atualizações do Ministério da Saúde contabilizam a destinação de 393 mil testes rápidos ao RS.

Para a alteração, além dos critérios técnicos, estão sendo levadas em conta as questões políticas. Internamente, o governador Eduardo Leite (PSDB) apresenta certa resistência aos ajustes. Nas reuniões, Leite vem repetindo que não quer fazer contas “de chegada”, relaciona a possibilidade de mudanças a necessidade de pesar as pressões políticas decorrentes e externa preocupação com o efeito sobre regiões. Na prática, os ajustes confirmariam o que todos já sabem: que o RS tem significativamente mais casos do que mostram os números estaduais. A última rodada da pesquisa sorológica liderada pela UfPel indicou nove casos não notificados para cada confirmado. No planejamento do governo estadual, os cálculos incluem uma margem ainda mais elástica: de 10 a 20 não notificados para cada confirmado.

Contabilizar positivos de testes rápidos tende a impactar diretamente no escurecimento de pelo menos parte das bandeiras que são atribuídas a cada região para sinalizar quão grave a pandemia está, já que o número de casos tem peso em três das cinco grandes variáveis que norteiam o cálculo das cores das bandeiras. Publicamente, a área técnica justifica que pontos de corte atuais, como a projeção de entre 10 e 20 casos reais para cada confirmado, já compensam de alguma forma a não contabilização dos resultados positivos de testes rápidos. Por isso, se eles começarem a ser contados nos cálculos do Distanciamento Controlado, deverá ocorrer também uma flexibilização na margem das cores das bandeiras. Uma das possibilidades que chegou a ser aventada é a de ampliar a gama de cores. Mas ela enfrenta resistência pelo fato de tornar a compreensão do modelo ainda mais difícil.

Técnicos buscam obter número de testes negativos 

Outros dois argumentos vêm sendo utilizados publicamente para deixar de fora os positivos detectados em testes rápidos. O primeiro, de que os exames podem estar identificando pessoas contaminadas há mais tempo (quatro ou cinco semanas) e que o objetivo não é ter o histórico, mas sim o dado recente. O segundo, um provável maior equilíbrio na proporção de testes moleculares aplicados entre os municípios. Ou seja, de que contar os positivos dos rápidos poderia acabar prejudicando justamente as cidades que testam mais e poupando aquelas onde há menos testagem. Enquanto apresenta estas justificativas públicas, internamente o governo busca uma correção. A área do Planejamento pressiona a da Saúde para que obtenha dos municípios ou o número total de testes aplicados ou a quantidade de testes com resultados negativos. Isso faria com que o indicador aplicado fosse de fato preciso tanto em termos absolutos quanto proporcionais, evitando que cidades que fazem mais testes possam ser identificadas erroneamente como com maiores velocidades de transmissão.

Para além dos casos confirmados em testes rápidos, um segundo critério poderá ser ajustado. O que trata da contabilização de casos recuperados. No modelo atual do Distanciamento Controlado são considerados recuperados nos últimos 50 dias aqueles confirmados positivos que não foram a óbito no período de 14 dias após a coleta do material para teste. O problema é que, depois de 14 dias, caso for submetida a outro teste, parte dos pacientes pode ainda apresentar o vírus ativo. Além disso, nem sempre o fato de não ir a óbito significa que a pessoa melhorou, já que o tempo de recuperação as vezes é longo e, após 14 dias, existem pacientes que seguem hospitalizados, parte deles em estado grave. Os técnicos justificam que, como é um indicador de velocidade de longo prazo, no qual a preocupação é mais medir a velocidade de um período mais extenso do que a recuperação individual, não chega a haver uma distorção. Mas deve ocorrer um aperfeiçoamento, mesmo que seja a troca do nome do indicador.

Diferenças com prefeituras continuam 

As diferenças em relação aos testes contabilizados e sua influência sobre a identificação dos casos é motivo de tensão constante entre o governo estadual e gestores municipais. Após semanas de divergências, na última sexta-feira a Secretaria Estadual da Saúde (SES) incluiu em seu painel oficial das informações sobre o coronavírus, em um só dia, 496 confirmações de casos que os municípios já faziam. A divergência nos números dizia respeito justamente a contabilização de positivos obtidos em testes rápidos. A SES também editou uma portaria normatizando a notificação e confirmação de casos da Covid-19. A mudança, por enquanto, não foi estendida aos cálculos das bandeiras do modelo de Distanciamento Controlado.

Com as prefeituras, o problema diminuiu, mas não acabou. Conforme o Boletim Epidemiológico divulgado no sábado, 16, pela prefeitura de Bento Gonçalves, havia 286 casos confirmados na cidade. Já o painel da SES registrava, na manhã de domingo, 166. Em Garibaldi o último Boletim Epidemiológico disponível, datado da quinta-feira, 14, confirmava 167 casos na cidade. No painel da SES, na manhã de domingo, eram 120. Em Bento Gonçalves a prefeitura optou por divulgar, junto com os números, uma explicação detalhando o que a cidade e o que o Estado contabilizam.

O peso dos testes 

No modelo em vigor, existem cinco grandes variáveis (que combinam um total de 11 fatores) consideradas para definir se uma região terá bandeira amarela, laranja, vermelha ou preta. São elas:

Velocidade do Avanço do Coronavírus;

Estágio da Evolução na Região;

Incidência de Novos Casos Sobre a População;

Capacidade de atendimento;

Mudança na Capacidade de Atendimento.

Em três delas o número de casos confirmados tem peso:

Velocidade do Avanço do Coronavírus;

Estágio da Evolução na Região;

Incidência de Novos Casos Sobre a População.

A Velocidade do Avanço do Coronavírus, por exemplo, combina quatro fatores. Três deles dizem respeito ao número de casos confirmados.

Correio do Povo

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